Início Colunistas O estranho no espelho: Como a procrastinação engana o seu cérebro

O estranho no espelho: Como a procrastinação engana o seu cérebro

Procrastinar é acreditar que a sua versão futura será um super-herói. Mais sábia. Mais disposta. Mais corajosa. Mas a verdade é simples: amanhã, você será a mesma pessoa, apenas com menos tempo.

Por que caímos nessa armadilha? A ciência explica que vivemos um conflito de interesses dentro de nossa cabeça. De um lado, o sistema límbico — a parte mais antiga do cérebro — exige gratificação imediata. Ele quer o alívio agora. Do outro, o córtex pré-frontal tenta planejar o futuro. O problema é que, nessa luta, o presente costuma ganhar por nocaute.

Daniel Kahneman, em suas pesquisas sobre o pensamento rápido e devagar, nos mostra que somos péssimos em prever nossos estados emocionais futuros. Nós sofremos de “miopia temporal”. Quando você empurra uma tarefa difícil para depois, o seu cérebro processa o seu “eu do futuro” como se ele fosse um estranho.

Exames de ressonância magnética confirmam: quando pensamos em nós mesmos daqui a um mês, as áreas do cérebro ativadas são as mesmas que usamos para pensar em uma pessoa desconhecida. Para o seu cérebro, dar trabalho para o “você de amanhã” é como dar trabalho para um vizinho que você nem conhece direito. Você se sente aliviado hoje, enquanto o “estranho” que você será amanhã herda a sobrecarga e o estresse.

A economia comportamental chama isso de desconto hiperbólico. Nós preferimos uma pequena recompensa agora — o conforto de não fazer nada — a uma grande recompensa depois — a paz de ter concluído o projeto. É uma troca injusta. É vender o seu futuro para comprar cinco minutos de anestesia no presente.

E os números são impressionantes. Uma pesquisa da Universidade de Calgary mostrou que 80% a 95% dos estudantes universitários procrastinam regularmente. E entre adultos profissionais, esse número ainda é superior a 50%. Ou seja, mais da metade da população está adiando sistematicamente o que poderia estar fazendo agora.

Outro estudo, da Universidade de Sheffield, revelou que a procrastinação crônica está diretamente ligada a níveis mais altos de estresse, ansiedade e até problemas de saúde física. Não é um hábito inofensivo. É um veneno de ação lenta.

A procrastinação não é um problema de gestão de tempo. É um problema de regulação emocional. Nós não adiamos a tarefa porque somos preguiçosos; adiamos porque aquela tarefa nos causa tédio, medo ou ansiedade. O cérebro, então, faz um “reparo de humor” imediato: ele foge do desconforto.

Mas aqui está a conta que ninguém faz: o custo cognitivo de manter uma tarefa pendente é altíssimo. A tarefa não feita ocupa espaço na sua memória de trabalho. Ela gera um ruído constante de culpa que drena a sua energia criativa.

A versão de você que vai acordar amanhã é a mesma de hoje. Não vai ter mais disposição. Não vai ter mais coragem. Não vai ter mais sabedoria. Vai ter apenas menos tempo. E, com menos tempo, a ansiedade aumenta e a qualidade da entrega diminui.

Então, a pergunta que fica não é “quando você vai começar?”. É “o que você pode fazer agora, nos próximos 5 minutos, para não ter que olhar para trás e perceber que passou a vida adiando o que precisa ser feito?”

Não espere a inspiração chegar, a motivação aparecer, as condições perfeitas, porque essa forma de pensar é apenas autoengano. Seja disciplinado e assuma o governo da sua própria mente hoje.

Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras |  Doutor em Educação

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