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Conhece-te a ti mesmo

Para a filosofia espírita, a máxima “conhece-te a ti mesmo” é considerada o meio   mais eficaz para a evolução moral e espiritual do ser humano. A Doutrina propõe que o autoconhecimento é a ferramenta necessária para vencer as imperfeições e alcançar a paz interior.

            Em “O Livro dos Espíritos”, na questão 919, Allan Kardec pergunta aos espíritos qual é o meio prático mais eficaz para o homem resistir ao mal. A resposta recebida, via Santo Agostinho, foi direta: “Um sábio da Antiguidade vos disse: Conhece-te a ti mesmo.” Conhecer-se para o Espiritismo, significa olhar honestamente para dentro, reconhecendo seus próprios defeitos, vícios morais e limitações para promover a reforma interior.

             Como orientação para alcançar o autoconhecimento,  Santo Agostinho recomenda  um  exame de consciência, propondo que, antes de dormir,  revisemos todas as  ações do dia, perguntando-nos se cometemos algum erro, se magoamos alguém, identificando o que precisa ser corrigido no dia seguinte. Mas a importância de conhecer a si mesmo vem sendo transmitida aos homens por filósofos e pensadores muito antes da vinda de Cristo. No século IV AC, a mensagem “Conhece-te a ti mesmo” já se encontrava gravada no pórtico de entrada do templo do deus Apolo, na cidade de Delfos, na Grécia antiga.

        Ainda assim há quem, antes de conhecer-se, passe a vida inteira procurando uma metade, como se tivesse nascido incompleto, como se em algum lugar do mundo existisse alguém carregando a peça exata do quebra-cabeça da sua existência. Chamam de alma gêmea, cara-metade, metade da laranja, metáfora estranha essa de admitir-se fruta pela estrada. Mas talvez o engano esteja justamente aí, não nascemos pela metade, a vida é que nos fatia em silêncio, nos diz Vania Wolff, em texto publicado em rede social, que vamos resumir, a seguir:

 ‘No começo, somos inteiros, no riso, no risco, no improviso. Temos uma verdade limpa, uma essência que dança sem pedir licença. Mas o tempo chega com seus dentes discretos. Vêm as palavras duras, as despedidas absurdas, as expectativas impostas, as dores nunca compostas. E pouco a pouco, quase sem alarde, vamos deixando pedaços pelo caminho, como folhas arrancadas pelo vento tardio.

Há também aqueles que passam por nossa vida e, sem que percebamos, vão nos redesenhando. Para sermos aceitos, amados ou simplesmente permanecermos pertencendo, muitas vezes nos tornamos outra pessoa. Vamos aparando arestas, silenciando vontades, reprimindo impulsos, diminuindo partes de nós para caber nas expectativas alheias. Moldamo-nos ao desejo do outro, ao interesse do outro, ao conforto do outro. E assim, quase sempre de forma imperceptível, vamos nos adequando a uma realidade dura, uma realidade que poda, limita e acomoda.

Perde-se um pouco de coragem, então nasce esse vazio, essa sensação de falta. Procuramos no outro aquilo que já foi nosso, depositando em mãos alheias a tarefa impossível de nos devolver o que abandonamos em nós.

Conhecer-se é um reencontro, conhecer a própria história é costurar memória e trajetória, conhecer a humanidade é compreender que não estamos sós nessa travessia de perdas e reconstruções. Aproxima de si, do centro, do inteiro. Não precisamos encontrar uma metade perdida em outro rosto, outro corpo, outro gosto. A metade que nos falta quase sempre mora em algum lugar esquecido da nossa própria caminhada.

E talvez a grande obra da vida não seja encontrar alguém que nos complete, mas tornar-se novamente completo. Inteiro no sentir, inteiro no existir, inteiro no partir e no ficar. Afinal, antes de procurar amor como abrigo, é preciso voltar a ser casa, teto, chão e presença em si mesmo’.

Concluindo, digo eu: Sigamos o exemplo de Santo Agostinho, no que se refere a mudarmos para melhor como pessoas. E reflitamos sobre o texto de Vania, sem esperarmos haja um  ‘Dark Horse’, para salvar o  Brasil e nos salvar a cada brasileiro. Mais honestidade, menos ‘vorcaros’. Mais centrados, menos centrão.

Akino Maringá, colaborador
Foto – Reprodução

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