O preço de evitar uma conversa difícil

Quantas vezes você arrastou um problema só para não ter que entrar numa conversa difícil? Este é um costume perigoso, destrói carreiras e adoece relacionamentos. Repare: quando surge um problema no trabalho — um prazo não cumprido, uma postura inadequada de um colega, uma liderança que cobra sem dar estrutura adequada… A primeira reação de muita gente é “deixar pra lá”. “Não vou me desgastar com isso”. Ou, “amanhã eu vejo isso”.
Dentro de casa, a dinâmica é parecida. Uma atitude do parceiro machucou, um comentário de alguém da família incomodou, a divisão das contas pesou… E, em vez de chamar para conversar, com calma e firmeza, a pessoa engole a frustração. Prefere o silêncio, prefere passar uma noite desconfortável, rolando na cama de um lado paro outro, a ter uma conversa franca de quinze minutos. Como não sabemos onde a conversa vai parar, evitamos.
Mas evitar a conversa quase nunca resolve; apenas transfere o problema para o futuro. E um dia a conta chega.
Toda conversa que você deixa de ter para resolver um problema vira um ressentimento. Aquilo que silenciamos, por vezes, se acumula com outros descompassos.
No ambiente profissional, o colaborador que não alinha as expectativas com o chefe vai alimentando insatisfação até o dia em que explode, entrega uma carta de demissão ou é desligado por um problema que poderia ter sido corrigido com um alinhamento simples meses atrás. Uma equipe que não tem coragem de falar sobre os erros do projeto opera em um clima de desconfiança. Ninguém corrige a rota, os resultados despencam e a conta chega para todo mundo.
Nos relacionamentos pessoais, o estrago é ainda mais profundo. Quando você engole o que te incomoda para não estragar o final de semana, aquele incômodo não desaparece. Ele fica guardado, fermentando. Vira ironia na mesa de jantar, vira frieza na cama, vira uma resposta grosseira e desproporcional diante de uma bobagem qualquer da rotina. A briga quase nunca é pela toalha molhada em cima da cama; a briga é pelo acúmulo de todas as conversas necessárias que foram adiadas ao longo dos meses.
Nós precisamos aprender a tolerar o desconforto passageiro da clareza.
Ter uma conversa difícil não significa brigar, gritar ou humilhar ninguém. Significa ter a maturidade de colocar o problema na mesa antes que ele vire um gigante que vai destruir coisas que importam para nós. Significa olhar para o colega de trabalho ou para a pessoa que divide a vida com você e dizer com respeito: “Nós precisamos resolver uma coisa aqui. Do jeito que está, não está funcionando”.
Uma conversa difícil dura dez, quinze, vinte minutos. Ela gera um nó na garganta, um frio na barriga e um incômodo… Mas limpa o terreno, dissipa os mal-entendidos, estabelece limites claros e preserva o que realmente importa. Por outro lado, o silêncio dura meses, anos, e quase sempre termina em rompimento definitivo.
A maturidade de um adulto — seja numa empresa, seja na condução de uma família — é medida pela sua capacidade de ter conversas desconfortáveis com elegância, verdade e respeito. Quem busca uma paz fictícia varrendo o lixo para debaixo do tapete acaba tropeçando no próprio tapete mais cedo ou mais tarde.
Hoje, pare de fingir que aquilo que te incomoda vai se resolver por mágica. Marque a reunião que você está adiando. Chame para a conversa a pessoa que está ao seu lado. Enfrente o desconforto de hoje para garantir a paz e a tranquilidade do seu amanhã.
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Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
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