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City tour na Blutopia

Atenção, senhoras e senhores, cabine preparada para pouso. Bem-vindos à Blutopia – o lugar onde mora o azul.

     Da porta da aeronave fomos levados diretamente a uma plataforma onde nos esperava para o primeiro city tour um veículo sem piloto, sem rodas, sem ruídos, movido por um tipo de energia que em nada prejudicava o entorno.

     Ao longo do percurso fomos observando a paisagem: muito verde, casas sem muros,  nenhum policial nas esquinas, tudo muito limpinho. Fizemos algumas paradas para conhecer de perto os marcos principais. A certa altura paramos diante de um prédio grande, antigo mas bem conservado. O guia da excursão falou:

     – Este edifício foi inicialmente um presídio; hoje é um grande espaço equipado para a prática de múltiplas atividades culturais, artísticas e esportivas. É preservado como símbolo de uma sábia reforma educacional que envolveu desde a escolinha das crianças até as universidades e garantiu o sucesso de uma nova política adotada para a reabilitação das pessoas outrora chamadas “criminosas”.

     – Reconheceu-se que alguns seres humanos, por motivos diversos, não tinham condição de viver livremente, visto que constituíam grave perigo para a sociedade: roubavam, matavam, estupravam, cometiam maldades de todo tamanho.  Seria então necessário isolar essas pessoas a fim de torná-las sociáveis.

     – A primeira medida foi endurecer as penas. Isso diminuiu consideravelmente a criminalidade, contudo não foi suficiente. A providência seguinte foi estabelecer que todo juiz tivesse formação não só em direito, mas também em psicologia. Desse modo os pacientes (antes chamados “réus”) passaram a ser avaliados não apenas pelos delitos cometidos, mas principalmente pelas razões que os levaram a delinquir.

     – Dentro dessa mesma política, as cadeias e as penitenciárias foram transformadas em clínicas e hospitais especializados na cura de desvios psíquicos e desajustes sociais. No início foi difícil. Muitos diziam que aquilo seria inviável, que seria uma perda de tempo, que quem nasce torto morre torto, coisas assim.

     – Porém deu certo sim. Duas décadas após a experiência ser colocada em prática, não havia mais na Blutopia (por desnecessidade) nenhum policial, nenhum guarda de trânsito, nenhum agente de segurança. Somente uma corporação formada por socorristas que ajudam a população em casos de intempéries e outras emergências.

     – Hoje somos conhecidos como “um lugar azul”. 

A. A. de Assis
Foto – Reprodução

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