A pressa está roubando a nossa gentileza?

Você já reparou como a pressa fecha a gente dentro de uma bolha? Saímos para a rua com a cabeça cheia de preocupações, contas para pagar, prazos para cumprir… O passo aperta. O maxilar trava. O olhar fica fixo no chão ou grudado na tela do celular. Sem perceber, quem está ao redor deixa de ser gente. Vira obstáculo.
O carro que demora dois segundos para arrancar no semáforo deixa-nos irritados. A senhora idosa que conta moedas com lentidão em nossa frente no caixa do supermercado vira um estorvo. O vizinho que cruza conosco no corredor do prédio e tenta puxar conversa parece um ladrão do nosso tempo.
Nós nos fechamos. Erguemos uma cerca invisível de indiferença para atravessar o dia.
Não fazemos isso por maldade. Eu acho que ninguém acorda com o objetivo de estragar o dia de alguém. O que acontece é resultado de cansaço acumulado, sobrecarga mental e uma vida que funciona no automático.
Quando a rotina aperta demais, o cérebro entra no modo de sobrevivência. Ele passa a enxergar qualquer imprevisto cotidiano como uma ameaça. A mente se defende tratando o tudo que cruza diante de nós como obstáculo.
Só que essa postura cobra um preço alto. A neurobiologia e a psicologia social explicam isso por meio da teoria do contágio emocional. O cérebro é desenhado para captar e espelhar o estado de ânimo, o estado emocional, dos outros.
Então, quando você anda impaciente, buzinando por qualquer bobagem, fechando a cara e ignorando quem cruza o seu caminho, o corpo descarrega cortisol de forma contínua. Você vive tenso. Você agride o seu corpo e a sua saúde emocional. Porém, a sua irritação não causa estragos apenas em você; ela também contamina quem está por perto. E a hostilidade alheia volta em dobro para o seu colo.
A cidade vira um moedor de gente, destruindo a gentileza, a generosidade, a atenção, o cuidado, porque todo mundo resolveu devolver na mesma moeda.
Mas a ciência mostra que o caminho inverso tem a mesma força.
Quando buscamos nos posicionar com calma, leveza, também podemos contagiar o ambiente. Por isso, gentileza no espaço público não é favor que se faz. Gentileza é inteligência de convivência. Dar passagem no trânsito para o motorista que deu a seta… Segurar a porta do elevador para quem vem carregando peso… Olhar nos olhos de quem está servindo o café, atendendo no balcão ou limpando a rua e desejar um bom trabalho com sinceridade… São pequenos gestos que garantem equilíbrio para nós mesmos. E também podem contagiar outras pessoas.
Repare bem: nenhum desses gestos custa dinheiro. Mas o efeito é imediato.
Quando alguém recebe uma atitude de consideração no meio do corre-corre, os ombros relaxam. A respiração volta ao compasso normal. A tensão do ambiente cai. Ou seja, você quebra o ciclo da rispidez.
A comunidade onde você mora e trabalha não é feita apenas de asfalto, de prédios e de muros. Uma cidade é feita, antes de tudo, do clima invisível que cada um de nós decide espalhar por onde passa.
A correria não vai sumir amanhã. As contas vão continuar chegando. As cobranças do trabalho continuarão pesadas. Mas temos o poder de escolher não despejar a ansiedade em cima de quem não tem nada a ver com as nossas dores.
Portanto, onde quer que você esteja agora, experimente suavizar a passada. Diminua um pouco o ritmo, respire fundo… Trate quem cruzar o seu caminho com a paciência – a calma e o respeito que você gostaria de receber hoje.
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Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
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