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Adaptação hedonista e a ilusão da felicidade

Você já ouviu falar sobre adaptação hedonista? Já escutou essa expressão? Talvez não tenha ouvido o conceito, mas, na prática, é provável que já tenha vivenciado essa condição emocional.

Adaptação hedonista ou adaptação hedônica é um conceito que foi apresentado na década de 1970 pelos psicólogos Brickman e Campbell. Esses dois pesquisadores canadenses trataram de um comportamento muito comum entre os humanos – após um episódio muito positivo e alegrador, a pessoa parece mais feliz, mas, em pouco tempo, adapta-se às circunstâncias e volta à condição anterior.

Ou seja, a pessoa fica feliz por alguns dias ou semanas, depois, se adapta e perde aquela condição de um bem-estar maior. Geralmente, isso acontece após uma conquista, após viver uma experiência surpreendente ou muito desejada. Tipo, quando você compra um carro novo, os primeiros dias são muito especiais.  Você tem a impressão que aquela sensação boa vai durar para sempre. Também é assim com a compra do sofá novo, da cozinha nova, da casa nova etc.

Às vezes, você introduz uma prática nova em sua vida e a experiência parece única, muito especial. Você até pensa: “caramba, por que não fiz isso antes?”. Cursar música, por exemplo. Ou, quem sabe, dança, um esporte… Ou, talvez, fazer uma faculdade. Nos primeiros dias, tudo é diferente, tudo é maravilhoso. Porém, com o passar dos dias, com o passar das semanas, você se acostuma à novidade. Não significa que ela deixa de ter valor; apenas você deixa de ter aquela maior sensação de felicidade. O que era novidade se torna comum, se torna corriqueiro.

E isso acontece com tudo! Vale para a promoção desejada na empresa, para o apartamento novo, a casa na praia… Vale para o relacionamento. Sim, amigos e amigas, a adaptação hedonista também acontece na dinâmica do relacionamento amoroso. O parceiro, a parceira, se torna uma pessoa “normal” e o relacionamento deixa de ser tão alegrador quanto era inicialmente.

A adaptação hedonista não acontece porque queremos. Não tem a ver com falta de gratidão, nem significa que somos pessoas que nunca estão satisfeitas.

É claro que a gratidão e preservar/investir em um olhar generoso para as nossas conquistas diárias são práticas fundamentais para que a adaptação hedonista não se torne uma condição de insatisfação permanente e, principalmente, de infelicidade.

Entender a adaptação hedonista é um passo importante e necessário no autoconhecimento. É fundamental para a gestão das emoções. Quando você compreende que sempre irá se adaptar a toda e qualquer circunstância, inclusive às condições mais positivas, não deposita a sua expectativa de felicidade nas possíveis conquistas. Noutras palavras, se você sabe que, mesmo após aquela promoção tão desejada, voltará à condição de felicidade atual, você não alimenta a ideia, errônea, de que precisa da promoção para ser feliz. É claro que pode lutar pela promoção, mas não por achar que é necessária para ser mais feliz.

É por falta de compreensão desse fenômeno emocional, a adaptação hedonista, que muita gente vive a constante busca por novas conquistas, por novas experiências. Quem aí não conhece alguém que depositou enorme expectativa numa cirurgia plástica esperando que, após o procedimento, seria mais feliz? A pessoa fez a cirurgia e, de fato, por um tempo, ficou super feliz. No entanto, depois de alguns meses, estava arrumando outro motivo para uma nova plástica.

Tem gente que vive comprando coisas, tentando fazer coisas novas o tempo todo… E faz isso porque quer experimentar a alegria que a novidade produz. Sim, a novidade traz felicidade. Pode ser um celular novo, uma blusa nova. Mas essa condição de felicidade deixa de existir em pouco tempo.

Portanto, não dá para condicionar a felicidade pessoal à próxima conquista, à próxima vitória. Isso é viciante e não se sustenta. A adaptação vai acontecer e a felicidade voltará à condição anterior. Detalhe, se a pessoa vive infeliz, insatisfeita, voltará a ficar infeliz, insatisfeita.

Como eu disse, a adaptação hedonista ou adaptação hedônica, como preferir, é uma condição natural, faz parte das flutuações de humor e das variações normais que acontecem em nossas emoções. Portanto, quando conquistar algo e se sentir feliz, aproveite, celebre, curta muito esse momento. Só não espere que essa condição vá se perpetuar. 


Ronaldo Nezo
Jornalista e Professor
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
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