Início Colunistas Com o tempo, tudo perde a graça

Com o tempo, tudo perde a graça

Por mais incrível que seja uma experiência que você viva, se ela for repetida várias vezes, deixará de proporcionar o prazer inicial. Você pode viver algo incrível. Você pode viver um momento “uau”. Se você for repetir amanhã, já não será igual, já não vai causar as mesmas sensações.

Anos atrás, um psicólogo recebeu a ligação de um amigo. Estava abatido. Era praticante de uma modalidade radical de salto de paraquedas. Um colega de equipe havia morrido. E ele disse:

– Meu amigo, preciso de sua ajuda urgente. Eu serei o próximo.

Ele começou a saltar pela emoção causada. A forte adrenalina. Mas, com o tempo, já fazia sentido os saltos mais “conservadores”. Passou a praticar saltos em que o paraquedas é aberto cada vez mais perto do solo.

Esse homem precisava aumentar cada vez mais o risco para ter o mesmo prazer.

No último salto, o colega de equipe morreu. O paraquedas abriu, mas a distância do solo era tão pequena que foi insuficiente para cair com segurança.

Somos uma espécie que tem profunda capacidade adaptativa. Nos adaptamos às circunstâncias – boas ou ruins. Mesmo os estímulos capazes de desencadear as emoções mais poderosas acabam desaparecendo no plano de fundo com a exposição repetida.

O professor e filósofo Clóvis de Barros Filho dá um exemplo ótimo: imagine que você chega numa pamonharia. Tudo ali é feito com muito capricho. Então você come a primeira pamonha. Está maravilhosa. Você tem a sensação que encontrou a alegria de viver. Então você pede a segunda pamonha… Depois, a terceira…

Ele brinca:

– Quando você chegar na décima pamonha, você nunca mais quer ver pamonha na vida.

É assim com tudo na vida.

Por que o primeiro amor marca tanto a vida da gente? Porque é o primeiro. Não é que seja o melhor, mas a experiência vivida é inédita, diferente, surpreendente.

Hoje, as pessoas se tornaram dependentes de viver grandes experiências emocionais. Quando não existem programações espetaculares no fim de semana, por exemplo, a vida parece um tédio, chata.

Repare, quem ainda acha o máximo tirar férias e ficar em casa – ou, quem sabe, visitar uma tia, um primo? Se o parente não tem uma casa maravilhosa, com piscina, vista para a praia, ou num ambiente que mais parece hotel cinco estrelas numa cidade turística, esse é o tipo de programa que pouca gente ainda quer fazer.

Férias, hoje, são sinônimo de praia, resort, passeio por cidades históricas, lugares badalados… As férias precisam proporcionar, inclusive, boas fotos. Afinal, que graça tem uma viagem que não pode ser mostrada?

O que há de comum em todas essas situações?

Busca-se o prazer, a alegria, a satisfação, a felicidade fora de si. Busca-se na exterioridade motivos para se sentir bem.

Acontece que ao buscar o prazer nas coisas, torna-se necessário viver novas experiências (e cada vez mais grandiosas) para ter alguma recompensa emocional. E o mundo das experiências e coisas incríveis, embora existe, nos é inacessível boa parte do tempo.

Eu adoraria viajar o tempo todo, conhecer lugares, comer as melhores pizzas do mundo. Certamente, teria muito prazer em fazer isso.

Mas, se eu depender disso para ter uma vida prazerosa, terei pouquíssimas oportunidades de ter essas alegrias.

A ciência descobriu que o prazer de viver precisa ser encontrado em nós mesmos. Como diz a pesquisadora Barbara Fredrickson, quando as pessoas acalmam a mente e expandem a capacidade de amar e de ser gentis, elas se transformam de dentro pra fora.

Ao inverterem a lógica, buscando investir na interioridade motivos para a felicidade, as pessoas vivenciam mais amor, mais interações, mais serenidade, mais alegria, mais prazer.

Quando investimos no cuidado de si, acalmando a mente, expandindo a capacidade de amar, de sermos gentis, descobrimos o prazer de viver em nossa própria vida – sem a necessidade das experiências espetaculares, das grandes conquistas, das surpresas mais incríveis…

Embora todas essas coisas possam ser especiais, elas produzem um pico de prazer, mas logo tudo volta ao normal. E é deste “normal” que precisamos cuidar para que nossos dias valham a pena.


Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
Visite meu blog: 
http://blogdoronaldo.wordpress.com
Siga-me no instragram: 

http://instagram.com/ronaldonezo

COMPARTILHE: