Início Colunistas  Por que você não precisa de um ano “fantástico”

 Por que você não precisa de um ano “fantástico”

Estamos em 2026. As luzes pisca-pisca, que pareciam mágicas há uma semana, agora começam a parecer deslocadas na decoração, pedindo para voltar às caixas. A euforia do dia 31, suas promessas, a roupa branca e a adrenalina dos fogos, dissipou-se. O que resta é a vida como ela é.

Para uma parte dos leitores, segunda-feira é dia de o despertador tocar cedo. É dia de retomar a rotina, abrir a agenda com as tarefas acumuladas e lidar com a realidade dos boletos que não param de chegar. Para outra parte, ainda tem férias, malas prontas para a praia, ou dias lentos em casa, longe das obrigações profissionais.

Independentemente de você estar voltando ao trabalho ou descansando, existe um desafio comum a todos nós nesta primeira semana do ano: o ajuste da expectativa com a realidade. Aprendemos a viver em busca do extraordinário e, consequentemente, desaprendemos a saborear o ordinário.

Para quem está saindo de férias agora, o perigo é encarar esse período apenas como uma rota de fuga desesperada. Muitas vezes, a exaustão que sentimos não pede apenas sono; ela pede sentido. Se as suas férias servirem apenas como um “analgésico” para suportar uma vida que você detesta, o alívio será momentâneo e você voltará em fevereiro ainda mais cansado existencialmente.

O meu convite é para que você aproveite esses dias livres para mudar a paisagem interna. Desligar o despertador é ótimo, mas recalibrar a sua vida é essencial. O descanso é uma oportunidade estratégica para o silêncio, para a leitura e para se fazer perguntas difíceis: “Que tipo de vida eu quero construir quando voltar?”, “Quais excessos eu preciso cortar?”. O ócio criativo deve servir para ajustarmos a mentalidade, para que a rotina, quando voltar, deixe de ser um fardo insuportável e passe a ser um caminho de construção. 

Se a nossa satisfação depender apenas dos grandes eventos, dos feriados prolongados ou das férias perfeitas, estaremos condenados a viver frustrados em 90% do nosso tempo. Saúde emocional, em última análise, é a capacidade de encontrar contentamento nos dias comuns, nos dias cinzas, nos dias em que nada de espetacular acontece. É a habilidade de enxergar beleza na repetição e dignidade nas tarefas simples.

Há uma sacralidade oculta no cotidiano que a ansiedade moderna nos impede de ver. Existe valor no trabalho honesto e repetitivo. Existe amor no ato silencioso de preparar o jantar para a família todos os dias. Existe um propósito nobre em cumprir horários, pagar as contas e honrar pequenos compromissos. É justamente na rotina, longe dos holofotes e da plateia, que o nosso caráter é forjado e que as relações verdadeiras se consolidam.

Não há vida para quem passa o tempo esperando o futuro — a sexta-feira, o feriado prolongado, a aposentadoria. Não faz sentido viver um ano inteiro apenas esperando pelas férias; a vida que vale a pena deve ser alegradora mesmo na mais comum das obrigações diárias. 

Portanto, se você está de férias, esteja de férias inteiramente. Desconecte-se das telas que mostram a vida dos outros e conecte-se com quem está ao seu lado, na areia ou no sofá. Se você vai trabalhar amanhã, vá por inteiro. Não encare a segunda-feira como um castigo ou o fim da alegria, mas como um privilégio de ter um lugar no mundo, de ser útil e de ter saúde para realizar suas tarefas.

Não precisamos de um “ano fantástico” cheio de reviravoltas cinematográficas para sermos felizes. Precisamos, na verdade, de olhos novos para enxergar a riqueza escondida nos dias normais.

Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras |  Doutor em Educação

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