
Existe uma mentira que contamos a nós mesmos e, pior, que repetimos para os outros quando nos questionam sobre nossos defeitos. Quando alguém pergunta “qual é o seu maior defeito?”, dizemos: “Ah, eu sou muito perfeccionista”.
Falamos isso como se fosse uma virtude disfarçada. Como se significasse que temos padrões elevados, que somos excelentes, que não aceitamos nada menos que o melhor. Mas, sejamos honestos, o perfeccionismo não é uma busca pela excelência. O perfeccionismo é, na maioria das vezes, apenas procrastinação, medo de ousar, arriscar, realizar.
O perfeccionismo é o terror absoluto de ser julgado. É a crença infantil de que, se fizermos tudo “perfeito”, estaremos blindados contra críticas, contra o fracasso e contra a vergonha.
O problema é que, no mundo real, a perfeição é inalcançável. E, ao persegui-la, cometemos o maior pecado contra o nosso próprio potencial: a inércia.
Há uma história famosa no mundo da psicologia comportamental sobre uma aula de cerâmica. O professor dividiu a turma em dois grupos. Ao Grupo A, ele disse: “Vocês serão avaliados pela quantidade. Quem fizer 50 quilos de vasos tira nota 10”. Ao Grupo B, ele disse: “Vocês serão avaliados pela qualidade. Vocês só precisam fazer um único vaso, mas ele tem que ser perfeito para tirar nota 10”.
O resultado? Quando o prazo terminou, os vasos de maior qualidade, os mais belos e tecnicamente perfeitos, foram produzidos pelo… Grupo A (o da quantidade). Enquanto o Grupo B passou o semestre inteiro teorizando, planejando e discutindo a estética perfeita sem colocar a mão na massa, o Grupo A estava amassando barro, errando, fazendo vasos tortos, corrigindo, aprendendo com a prática e evoluindo. Eles aprenderam fazendo. O Grupo B paralisou pensando.
Essa é a tese que defendo para a nossa vida: o feito é melhor que o perfeito não feito.
Não estou fazendo aqui uma apologia à mediocridade ou ao trabalho “nas coxas”. Estou defendendo a coragem de realizar.
No Vale do Silício, existe um conceito chamado MVP (Minimum Viable Product – Produto Mínimo Viável). A regra é: lance a versão mais simples possível, coloque no mercado, veja como as pessoas usam e corrija na rota. Reid Hoffman, fundador do LinkedIn, tem uma frase célebre: “Se você não tem vergonha da primeira versão do seu produto, você demorou demais para lançar”.
Não podemos dirigir um carro estacionado. O GPS só recalcula a rota se o carro estiver em movimento. Enquanto estamos parados na garagem, planejando a viagem perfeita, checando a pressão dos pneus pela décima vez, polindo o retrovisor… a vida está passando. E alguém, com menos talento, mas com mais coragem de errar, está avançando e ocupando lugares que poderíamos ocupar.
O que está travando aquele seu projeto? É o medo de lançar o vídeo porque a iluminação não é de estúdio? Grave com a luz da janela. É o medo de abrir o negócio porque o logotipo não está ideal? Comece com o nome simples. É o medo de escrever o texto porque o português não é erudito? Escreva como você fala.
Aceite que você é uma obra em construção. Aceite que o erro faz parte do processo de descoberta. O mundo não pertence aos perfeccionistas. O mundo pertence aos “fazedores” que têm a coragem de colocar seus rascunhos na rua, que aceitam o feedback, que corrigem a rota e que melhoram um pouco a cada novo dia.
Você não precisa ser incrível para começar. Mas você precisa começar para, um dia, chegar onde sempre sonhou.
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Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
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