
Existe um ditado popular que nossos pais repetiam e que a gente, na correria moderna, nem sempre lembra: “Quem não faz bem feito, faz duas vezes”.
A rotina de trabalho nos mostra isso com frequência. Um serviço feito na pressa, entregue de qualquer jeito, acaba voltando para ser corrigido. E, muitas vezes, volta no pior momento possível, exigindo o dobro de atenção.
E aí eu penso: por que fazemos isso? Por que nos sabotamos?
Eu sei que, em vários casos, o serviço malfeito não é falta de capacidade ou de condições de trabalho… Muitas vezes, a negligência é uma espécie de boicote emocional. Nós nos sentimos mal pagos, invisíveis ou desvalorizados pelo chefe ou pelo cliente. E aí, usamos o desleixo como uma vingança silenciosa.
É a lógica de entregar o mínimo possível para não dar lucro a quem não nos valoriza. “Ah, eles pagam pouco? Então vão ter pouco”. Mas essa conta não fecha. E eu vou explicar o porquê.
Primeiro, pela lógica do tempo: O retrabalho é o custo do trabalho negligenciado. Quando você faz de qualquer jeito para economizar energia, você está apenas criando uma dívida com você mesmo.
Aquele relatório sem revisão, aquele material mal organizado, aquele e-mail confuso. Isso tudo volta. E volta gerando desgaste com a equipe e com o cliente.
O trabalhador acha que está punindo a empresa com a sua má vontade, mas está apenas tomando o seu próprio tempo livre. Quem trabalha mal não descansa; vive corrigindo o que fez ontem.
Segundo, pela lógica da ética: O trabalho é a nossa assinatura. O professor Mario Sergio Cortella define capricho como fazer o melhor que você pode, na condição que você tem, enquanto não tem condições melhores para fazer melhor ainda.
Capricho não é detalhismo sem sentido. Capricho é autorrespeito. Quando você entrega um trabalho mediano de propósito, você não mancha a marca da empresa. Você mancha a sua biografia.
O seu nome vai impresso em tudo o que você toca. Se o resultado é sempre “mais ou menos”, a etiqueta de que você não é confiável cola em você, e não na fachada da loja.
Aristóteles dizia que nós somos o que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um feito isolado, mas um hábito. Se nos habituamos a entregar um rascunho, o mercado passa a nos ver como profissionais incapazes de realizar um trabalho de excelência.
Além da perda de tempo e de reputação, existe o impacto nas outras pessoas. Nós não trabalhamos isolados. O nosso trabalho é quase sempre o ponto de partida do trabalho de outra pessoa. Se você entrega a sua parte com falhas, você atrasa a rotina do seu colega. Você sobrecarrega a sua equipe. O desleixo transfere a sua insatisfação para as costas de quem não tem culpa.
E o desleixo também afeta a sua vida pessoal. Quem se acostuma a entregar o mínimo no trabalho, muitas vezes começa a entregar o mínimo em casa. Começa a ser um parceiro ausente. O desleixo vira um padrão de comportamento. E a nossa consciência percebe isso. A autoestima diminui quando sabemos que poderíamos ter feito melhor e não fizemos.
Entenda: a excelência não é um favor ao patrão. A excelência é uma obrigação moral com o seu talento.
Se você aceitou a tarefa, cabe a você entregar o seu melhor. Não pelo salário, que pode até ser injusto, mas pela dignidade do que você faz.
Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
