Reserva cognitiva: a poupança que protege a sua mente

Você já conheceu alguém que, mesmo com idade avançada, mantém a memória afiada, a lucidez, a capacidade de aprender coisas novas? E já viu pessoas mais jovens, com bem menos anos de vida, que parecem ter perdido a vitalidade mental?
A ciência tem uma resposta para essa diferença. E ela tem nome: reserva cognitiva. Mas antes de explicar o que é a reserva cognitiva, deixe-me contar uma história.
Em 1986, um neurocientista chamado David Snowdon começou um dos estudos mais originais e ambiciosos já realizados. Ele convenceu 678 freiras a participar de um experimento que duraria décadas. Elas se submeteriam a testes ano após ano, até o fim de suas vidas, e, depois que morressem, doariam seus cérebros para pesquisa.
Uma das participantes, a Irmã Mary, chamou a atenção do cientista. Aos 101 anos, ela mantinha uma memória impressionante. Mas o que o neurocientista David Snowdon descobriu depois da morte dela deixou a comunidade científica boquiaberta.
Ao examinar o cérebro da irmã Mary, ele encontrou todas as alterações típicas de quem está em estágio avançado da doença de Alzheimer: placas, emaranhados, as lesões clássicas da demência. Mas a Irmã Mary, em vida, nunca apresentou sintomas. Nenhum.
Como isso era possível?
A resposta que os cientistas encontraram foi a reserva cognitiva.
A reserva cognitiva é a capacidade que o cérebro tem de improvisar e encontrar formas alternativas de executar tarefas, mesmo quando partes do cérebro estão danificadas. É como se o cérebro tivesse “rotas de desvio” preparadas para quando a estrada principal estiver interditada.
O neuropsicólogo Yaakov Stern, da Universidade de Columbia, compara o cérebro a um músculo: quanto mais você o exercita, mais forte ele fica. Pessoas com maior reserva cognitiva conseguem tolerar melhor danos cerebrais e retardar os sintomas de doenças neurodegenerativas.
A boa notícia? Reserva cognitiva não é não tem a ver com genética. É o conjunto de recursos neurais que acumulamos ao longo da vida por meio de atividades como leitura, estudos, trabalhos que desafiam a mente, e engajamento social.
E como a gente constrói essa reserva?
A ciência aponta alguns caminhos. Quatro deles são essenciais:
Estude e aprenda coisas novas. Quanto mais anos de educação formal, maior a tendência de ter uma boa reserva. Mas não é só diploma. É a disposição de continuar aprendendo, de sair da zona de conforto. Pode ser o aprendizado de pintura, música, crochê, língua estrangeira… Tudo que é diferente, que é novo para você.
Leia. Pessoas com hábito regular de leitura fortalecem a reserva cognitiva. Não precisa ser literatura complexa. Precisa ser uma leitura que exija atenção e concentração.
Mantenha a vida social ativa. Conversar, debater, participar de grupos. A interação social é um dos estímulos mais poderosos para o cérebro.
Movimente o corpo. A atividade física não é só para os músculos. Ela também fortalece o cérebro e ajuda a construir reserva cognitiva.
As quatro atividades que citei são acessíveis a todos nós. Portanto, queira aprender, leia, interaja com as pessoas e se movimente. Você estará criando reserva cognitiva, uma espécie de poupança para o seu cérebro continuar funcionando bem, mesmo na velhice.
Irmã Mary viveu até os 101 anos com uma memória intacta, mesmo tendo o cérebro repleto das lesões típicas do Alzheimer. Ela construiu uma reserva cognitiva ao longo de décadas de estudos, leitura, ensino e vida comunitária. Ela não sabia que estava se protegendo. Mas estava. E você também pode.
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Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
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