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Não faça da reclamação um modo de vida

Conhece alguém que reclama de tudo? Reclama do trabalho, do trânsito, do calor, do frio, do dinheiro, do chefe, do governo, da família, do vizinho, da segunda-feira… Parece que, para esse tipo de pessoa, sempre existe alguma coisa errada. Será que essa pessoa realmente tem uma vida muito pior do que a vida dos outros? Ou será que ela desenvolveu o hábito de procurar aquilo que está errado?

Reclamar de um problema faz parte da vida. Tem situações em que a gente precisa reclamar mesmo. Uma injustiça precisa ser denunciada. Uma situação ruim precisa ser questionada. Um problema precisa ser reconhecido antes de ser resolvido. O problema não está em reclamar. O problema começa quando reclamar deixa de ser uma reação a uma dificuldade e passa a ser a maneira como a pessoa interpreta a própria vida.

E isso pode acontecer sem que a gente perceba. A pessoa começa reclamando de uma coisa específica. Depois encontra outro motivo. E mais outro. Aos poucos, torna-se natural. A pessoa acorda e já tem alguma coisa para reclamar. Quando percebe, reclamar já não é mais algo que acontece de vez em quando. Virou um hábito.

E todo hábito acaba influenciando a maneira como prestamos atenção na vida. Quem reclama o tempo inteiro enxerga aquilo que está faltando, aquilo que incomoda, aquilo que os outros não fizeram. E o que funciona deixa de ser notado, deixa de ser motivo de gratidão.

Pensa numa pessoa que chega em casa e enxerga a bagunça. Talvez não perceba quem passou o dia trabalhando e ainda tentou deixar a casa em ordem. Vai para o trabalho e reclama do salário. Talvez não perceba que tem um emprego que, alguns anos atrás, pedia a Deus para conseguir. Entra no carro, vê o trânsito e já começa a reclamar – esquece até do privilégio que é ter um carro.

Não estou dizendo que a pessoa precisa fingir que está tudo bem. Uma vida saudável não é uma vida sem problemas. Porém, é uma vida em que os problemas não ocupam todo o campo de visão.

Existe uma diferença enorme entre identificar um problema e morar na reclamação. Identificar um problema ajuda a encontrar uma saída. Reclamar repetidamente, sem nenhuma disposição para agir, apenas mantém a pessoa presa àquilo. E talvez aqui esteja a chave da virada: posicionar-se diante do problema e questionar “Existe alguma coisa que eu possa fazer a respeito?”

Se existe, faça. Converse. Peça ajuda. Mude. Procure uma solução. Mas, se não existe nada que esteja ao seu alcance, talvez seja necessário aprender a não gastar tanta energia naquilo que não consegue controlar.

Reclamar pode dar uma sensação de alívio. Só que, quando isso se repete todos os dias, a reclamação deixa de ser apenas um desabafo e começa a se tornar um filtro. E a vida passa a ser percebida quase sempre pelo que falta, pelo que incomoda e pelo que não saiu como deveria.

Não dá para escolher tudo o que acontece com a gente. Mas podemos escolher o que fazemos com aquilo que acontece. Nem todo problema pode ser evitado. Entretanto, ficar repetindo a mesma reclamação não muda o fato. Em muitos casos, apenas aumenta o peso que ele ocupa dentro de nós.

Por isso, antes de reclamar pela décima vez da mesma coisa, vale parar um instante e perguntar: “O que eu posso fazer?” Se puder fazer alguma coisa, faça. Se precisar aceitar, aceite. Mas não transforme a reclamação em hábito.

Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras |  Doutor em Educação

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