
Saber ouvir é mais do que ter a capacidade auditiva. É mais do que uma capacidade física. Saber ouvir é uma atitude cognitiva mental, intencional – uma habilidade cada vez mais rara.
Eu recordo de um gestor que me convidou anos atrás para fazer um diagnóstico das estratégias de comunicação da empresa dele. Durante algumas semanas, levantei todas as informações, preparei uma apresentação e, no dia marcado, sentamos para conversar sobre o que identifiquei na organização.
Quando cheguei ao segundo tópico, percebi que nada que havia preparado teria valor. Para cada situação que eu mostrava, aquele gestor apresentava argumentos e projetos que a empresa vinha desenvolvendo. Era um gestor apaixonado, mas com enorme dificuldade de ouvir.
Ao final de uma reunião de quase duas horas, devo ter falado uns 15, 20 minutos. E ele falou todo o tempo restante. Resultado? Não foi possível chegar à metade do diagnóstico que havia preparado. O máximo que pude fazer foi enviar por email o resumo (nos slides) dos principais problemas constatados. E ainda saí de lá com uma outra impressão: o gestor não sabia escutar nada que contrariasse suas convicções.
Mas, preste atenção: saber escutar não tem a ver com calar a boca e deixar o outro falar.
A boa escuta não é passiva. Ouvir é verbo; é ação.
Quem ouve bem apreende o que o outro diz; ou seja, retém o conteúdo, contextualiza, problematiza e se posiciona a partir do que o outro falou. Ou seja, trata-se de uma atitude que vai muito além de ficar quieto. A boa escuta é uma atitude interessada no outro e no que o outro tem a dizer.
Três erros são muito comuns na escuta.
Primeiro, assumir uma atitude defensiva ou agressiva. Ocorre quando a outra pessoa começa a falar e você já se prepara para ter respostas ou argumentos para tudo o que o outro disser. Esse tipo de comportamento geralmente é pouco produtivo e pode resultar em discussão ou afastamento.
Segundo erro, estar distraído. Enquanto o outro fala, você olha o celular, vê o que passa na televisão, mantém os olhos e a mente desconectados da pessoa que está falando. A mente, às vezes, está navegando por outros problemas. O outro acaba se sentindo desprezado, ignorado. Por isso, uma dica, se sua mente está distraída e não vai conseguir prestar atenção no que a outra pessoa vai falar, peça licença, explique que não será possível conversar naquele momento.
Outro erro comum é a impaciência. Você escuta, mas não quer escutar. Por uma tentativa de ser educado, fica quieto, deixa a pessoa falar, mas não é receptivo ao que a outra pessoa está falando. Ouve por ouvir. Ouve para se mostrar respeitoso. Mas, na prática, rejeita a fala da outra pessoa. A conversa não passa de dissimulação.
Esses três erros, de certo modo, têm origem em um coração pouco acolhedor. A falta de uma escuta atenta reflete uma atitude mental em que, quem não escuta, na prática, não valoriza o outro.
E isso, principalmente, nos relacionamentos amorosos é um desastre. Não existe relacionamento que se sustente sem que haja uma escuta generosa, atenta, acolhedora.
Portanto, se você quer desenvolver a habilidade de ouvir, tenho duas grandes dicas.
Primeira, adote uma atitude consciente sobre como você está reagindo diante da outra pessoa. Queira ouvir! Vou repetir: queira ouvir! De maneira consciente, intencional, coloque-se diante da outra pessoa com disposição para ouvi-la.
Segunda sugestão, quando o outro começar a falar, ao primeiro desejo de responder, morda a língua! A necessidade de responder de maneira apressada deprecia a fala do outro. Então, contenha a língua. Responda sim, interaja sim, mas quando a outra pessoa tiver parado de falar e estiver esperando por sua intervenção.
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Ronaldo Nezo
Jornalista e Professor
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
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