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Bondade seletiva não é virtude, é negócio

Você quer saber quem uma pessoa é de verdade? Não olhe para como ela trata o chefe, o investidor ou o parceiro romântico no início do namoro. Olhe para como ela trata quem não pode lhe oferecer absolutamente nada em troca.

Vivemos em uma sociedade que valoriza muito a etiqueta social. Desde pequenos, somos treinados a sorrir em reuniões, a apertar mãos com firmeza e a usar as palavras certas com quem detém alguma autoridade. Mas existe uma diferença — muitas vezes ignorada — entre etiqueta e caráter.

Etiqueta é uma roupa que você veste para agradar quem pode te beneficiar. É uma performance. Caráter, por outro lado, é a sua pele. É quem você é quando ninguém “importante” está no ambiente e quando não há nenhuma recompensa em jogo.

Existe um ditado antigo, de autoria incerta, que resume essa dinâmica com perfeição: “Se você quer conhecer o caráter de uma pessoa, observe como ela trata os seus subordinados, não os seus iguais.”

Imagine a cena: você está em um jantar. A pessoa à sua frente é encantadora, conta histórias fascinantes, te elogia e parece um exemplo perfeito da gentileza. Mas, de repente, o garçom traz o prato errado. Ou a bebida demora um pouco mais. Em uma fração de segundo, a máscara cai. Aquele ser humano “encantador” estala os dedos, levanta a voz, trata o profissional com desdém ou, o que é tão grave quanto, age como se a pessoa servindo fosse invisível, uma mera mobília do restaurante.

Nesse momento, você teve um vislumbre da alma daquela pessoa. Por que isso acontece? Porque ser gentil com o chefe ou com um cliente rico não é necessariamente bondade; muitas vezes é apenas estratégia de sobrevivência. Até as pessoas mais cruéis sabem ser simpáticas quando precisam de algo. Isso é “Bondade Transacional”: eu te dou educação em troca do seu favor, do seu dinheiro ou da sua aprovação.

A prova de fogo acontece quando a transação acaba. Quando você está diante de um porteiro, de uma faxineira ou de um garçom, a sociedade — infelizmente — diz que você está em uma posição superior naquele momento. Se você for rude com eles, provavelmente não será punido. Ninguém vai te demitir. Ninguém vai te multar. E é justamente nesse vácuo de consequências que o caráter se revela.

Se uma pessoa se sente no direito de humilhar ou ignorar quem a serve, significa que a bondade dela é seletiva. E preste muita atenção nisso: bondade seletiva não é bondade; é manipulação. Se o respeito que alguém oferece depende do cargo que o outro ocupa ou do tamanho da conta bancária, então isso não é respeito. É interesse.

A nobreza de espírito não muda de acordo com o ambiente. Uma pessoa gentil, educada, de coração humilde, é a mesma diante do CEO de uma grande empresa e diante de um engraxate. Ela entende que a dignidade humana não é hierárquica. O uniforme que alguém veste ou a função que desempenha não diminui o valor da vida que está ali.

Por isso, não se impressione com discursos bonitos em palcos iluminados ou com a gentileza calculada de quem quer te vender algo. Observe os bastidores da vida.

Observe quem segura a porta do elevador para o entregador que está com as mãos ocupadas. Observe quem olha nos olhos da funcionária da limpeza e diz “bom dia” sabendo o nome dela, reconhecendo a sua existência. Observe quem pede “por favor” e diz “obrigado” mesmo quando está pagando pelo serviço, entendendo que o dinheiro compra o produto, mas não compra a submissão de ninguém.

A grandeza de um ser humano não é medida pelo luxo que ele ostenta, nem pelos cargos que acumula. A grandeza é medida pela capacidade de enxergar o outro como um igual, independentemente do cenário.

Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras |  Doutor em Educação

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