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O líder que se acha confiável

Pesquisas mostram que a confiança no ambiente corporativo está em queda livre. E o problema não é o funcionário; é o líder.

Um estudo da Sólides, empresa especializada em recursos humanos, em parceria com a Offerwise, que atua com pesquisas de mercado, revelou algo, no mínimo, curioso. De um lado, 76% dos líderes acreditam que seus times confiam neles. Mas, do outro lado, 43% dos liderados confiam em parte — ou não confiam de forma alguma — nos superiores.

É ou não é uma diferença brutal? Até parece aquelas pessoas que disputam uma cadeira de vereador e têm certeza que serão eleitos. Até contam quantos votos vão receber. E aí, na eleição, mal conquistam os votos da família.

Assim são muitos líderes: o sujeito se acha confiável diante da equipe, mas poucos colaboradores, de fato, confiam plenamente nele.

E não para por aí. O Work Relationship Index 2025, da HP, mostra que apenas 20% dos trabalhadores disseram, em pesquisa, ter uma relação saudável com o trabalho — uma queda de 8 pontos em relação a 2024. Quatro em cada cinco profissionais já não vivenciam o trabalho de forma positiva. A confiança nos líderes seniores para tomar decisões corretas caiu 10 pontos percentuais. A percepção de empatia da liderança caiu 13 pontos. A coerência entre discurso e prática dos líderes caiu 10 pontos.

E qual é o custo disso tudo? Falta de engajamento. O relatório da Gallup 2025 estima que o desengajamento custa à economia americana 2 trilhões de dólares por ano, impulsionado em grande parte pela falta de confiança dos funcionários em seus gestores e executivos seniores. E a conta chega ao Brasil. Parte da rotatividade nas empresas está diretamente relacionada à falta de confiança no líder.

Isso é tão relevante que o contrário também é verdadeiro. Uma pesquisa Talent Trends 2026, da Michael Page, mostra que 93% dos profissionais que permanecem nas empresas confiam em seus líderes. Ou seja, quando o colaborador confia no líder, ele não pede demissão.

Mas a confiança não é só sobre evitar prejuízos. Ela também é o motor dos bons resultados. Funcionários que confiam em seus líderes são 12 vezes mais propensos a estar totalmente engajados. Em empresas com alta confiança, os colaboradores relatam 74% menos estresse, 50% mais produtividade e 13% menos dias de afastamento por doenças. A confiança é o ativo invisível que separa empresas que apenas sobrevivem das que prosperam. E, segundo a ADP, funcionários que confiam em seus gestores são 41 vezes mais propensos a estar altamente motivados e comprometidos.

Então, como construir essa confiança? Os dados apontam três caminhos.

Primeiro: coerência entre discurso e prática. A confiança não se constrói com promessas. Constrói-se com ações repetidas, dia após dia. O que você fala e o que você faz precisam caminhar juntos.

Segundo: comunicação clara e transparente. Mesmo quando a notícia é ruim. Especialmente quando a notícia é ruim. Colaboradores preferem uma verdade difícil a uma mentira.

Terceiro: colocar as pessoas no centro das decisões. Não como discurso, mas como prática. Escutar de verdade. Considerar o impacto das decisões na vida das pessoas. Não tratar gente como recurso descartável.

A confiança não é um benefício que a empresa concede. É reflexo de comportamentos virtuosos, mesmo no mundo dos negócios. Confiança se constrói na repetição, em atitudes coerentes, éticas, humanas, sensíveis, empáticas…

Entenda: o problema não é o funcionário que desconfia. É a ilusão do líder que por vezes reclama da equipe, mas nunca pergunta: ‘Será que minha equipe confia em mim?’.

Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras |  Doutor em Educação

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