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 Não somos vítimas da nossa rotina

Repare no vocabulário que você usa quando o domingo vai chegando ao fim. Em quase todas as casas, a conversa é exatamente a mesma. As pessoas olham para o relógio, dão um suspiro pesado e começam a desfilar uma lista de lamentações: “Amanhã eu tenho que acordar cedo.” “Tenho que enfrentar aquele trânsito maluco.” “Tenho que aturar aquela reunião chata.” “Tenho que levar menino na escola, tenho que resolver abacaxi no trabalho, tenho que pagar conta.”

Sem perceber, você passa a noite inteira repetindo que tudo o que faz na sua vida é uma grande punição.

E aí acontece o inevitável: você acorda na segunda-feira já cansado. E nem sempre porque  não descansou o suficiente no fim de semana, mas porque a sua mente passou as últimas horas carregando o peso de uma obrigação que você mesmo transformou em fardo. A gente fala da própria rotina como se fosse um prisioneiro cumprindo pena, como se a vida estivesse acontecendo contra a nossa vontade.

Porém, sejamos sinceros, ninguém colocou uma arma na nossa cabeça e nos obrigou a assinar o contrato do nosso emprego atual. Ninguém nos obrigou a morar onde moramos, a assumir os compromissos que assumimos ou a escolher a vida que temos hoje. Tudo o que está na agenda é fruto de decisões que tomamos. As obrigações de hoje nada mais são do que consequências das escolhas que fazemos.

Quando vivemos dizendo “eu tenho que”, vestimos o papel de vítima da nossa própria história.

Você transfere a responsabilidade para o mundo, para o chefe, para o governo, para a economia, como se não tivesse participação nenhuma na construção da própria rotina. E o efeito psicológico disso é devastador. A mente humana odeia a imposição. Toda vez que você se convence de que está sendo obrigado a fazer algo, o seu cérebro reage com cansaço, com desânimo e com uma irritação silenciosa que estraga o seu dia antes mesmo dele começar.

Por isso, baseado em estudos da Neurociência, posso assegurar: se você quer mudar o seu estado de espírito, comece trocando o seu vocabulário.

Em vez de repetir que você “tem que” fazer as coisas, experimente dizer — em voz alta — que você escolheu e que você vai fazer.

Mude a frase. Diga para você mesmo: “Eu vou acordar cedo amanhã porque eu escolhi trabalhar para sustentar a minha casa e dar dignidade para a minha família.” “Eu vou para aquela reunião porque eu escolhi ter a responsabilidade de gerenciar meus projetos.” “Eu vou levar meus filhos na escola porque eu escolhi criar meus filhos com presença e cuidado.”

Percebe a diferença no tom?

Quando trocamos o “tenho que” pelo “eu vou”, saímos do papel de vítima e assumimos o volante da nossa vida. Na prática, você se lembra dos motivos que te fizeram chegar até aqui. As tarefas da segunda-feira continuam sendo exatamente as mesmas — a planilha continua lá, o trânsito continua lá, os problemas continuam lá —, mas a sua postura diante delas muda completamente.

Você deixa de ser um carregador de fardos e volta a ser o dono das suas próprias decisões. O que fazemos deixa de ser punição e passa a ser resultado de nossas escolhas.

Portanto, pare de poluir a sua casa e a sua mente com a linguagem da lamentação. Olhe para a sua agenda de amanhã com maturidade e com respeito pela história que você está construindo. O trabalho dá trabalho, a família exige dedicação e a vida adulta cobra o seu preço todos os dias. Mas ter uma rotina para gerenciar e compromissos para cumprir não é um castigo; é o sinal de que a sua vida está em movimento.

Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras |  Doutor em Educação

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