Colunistas

Dom Jaime e o latim

O telefone tocou na minha casa antes das sete da manhã. Era o arcebispo Dom Jaime Luiz Coelho. Tomei um susto. Para ligar tão cedo ele deveria ter algum motivo especialmente importante. E tinha. Para ele, que era professor de latim, valia pelo menos um puxão de orelha.

     Na época eu era o redator dos editoriais da “Folha do Norte do Paraná”. Deu-se que naquele dia, decerto querendo exibir erudição, dei ao artigo o título “In medium virtus”. Meu cochilo deve ter doído no ouvido dele.    

     Aí veio a aulinha. O correto seria “In medio virtus”, não “in medium”. Isso porque “in medio” (no meio) é um adjunto adverbial, pedindo portanto o caso ablativo. Simplesinho assim.

     Hoje raríssimos estudiosos têm ideia da importância das declinações e desinências para o latim. Mas naquela época é provável que houvesse ainda em Maringá umas cem pessoas familiarizadas com  o nobre idioma de Virgílio e Cícero – padres, ex-seminaristas e alguns professores. Não fiquei sabendo quantos deles perceberam minha escorregada. Talvez o professor Hiran…

     Desde então passei a ter mais cuidado quando eventualmente uso alguma palavra ou expressão mais chique. Geralmente confiro nos alfarrábios,

     Se a gente bobear, fala ou escreve alguma bobagem. Como aquele orador pomposo que disse: “Vou repetir pixi-tris as palavras da Vossa Excelência”. Ele queria dizer “ipisis litteris” (= nos mesmos termos, ao pé da letra).

     Lembro também um episódio ocorrido no Início dos anos 1960. Um então famoso poeta estava em andanças pelo interior fluminense como candidato a deputado. Num dos comícios, um orador que curtia esmerar no vernáculo saudou-o com estabanada saraivada de adjetivos: “Ilustre, insigne, ínclito, preclaro e mentecapto poeta das multidões!…”

     O candidato sorriu meio sem jeito, respirou, respondeu: “Chamaste-me ‘mentecapto’, / mas tudo bem, caro irmão… / A mim me importa de facto / é a tua santa intenção…”  Tenho dito.

A. A. de Assis
Foto – Reprodução

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